segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A CULTURA DO DESCASO COM A EDUCAÇÃO

Existe no Brasil a cultura de não se valorizar a educação. Para mudar uma cultura é necessário investir na educação. Mas, como será possível investir em algo em que não atribuímos valor? Ficamos assim em um impasse que engripa nosso desenvolvimento socioeconômico.
Crianças e jovens dão mais valor a uma lanhouse do que a uma escola. Os pais preferem a novela e o futebol a ajudar o filho com a tarefa. Os empregadores torcem o nariz se o empregado tira umas horinhas para ver como está o filho na escola. E o Estado destina mais verbas para pistas e viadutos do que para a reforma das escolas e para os salários dos professores.
Posso dar testemunho do pouco valor que o brasileiro atribui à educação. Muitas vezes fui abordado por parentes próximos que diziam que eu não precisava estudar por que existem diversos casos de pessoas bem sucedidas que não precisaram de estudo. Já fui acusado de estar estudando para fugir do trabalho. Até já escutei que eu não devia estudar, devia trabalhar por que “filho de pobre não estuda, filho de pobre trabalha”.
O descaso político é apenas reflexo dessa cultura. O político não é um extraterrestre que veio à Terra e se apossou de nossas estruturas de poder. O político faz parte do povo e carrega consigo seus costumes e valores. É por isso que não são implementadas políticas públicas favoráveis à educação.
O mais triste é que nem mesmo os profissionais da educação conseguem superar essa cultura. Na semana passada, um professor que eu conheço estava chegando à escola para fazer coordenação pedagógica quando foi abordado pelo porteiro que lhe perguntou “O que o senhor está fazendo aqui, professor?” O professor logo percebeu que por trás da pergunta havia na verdade o seguinte pensamento: “Esse professor vem coordenar na escola, vai ficar aí um tempão e vai me impedir de ficar a vontade sozinho, fazendo coisas do meu interesse pessoal”. O professor teve vontade de responder: “Não é da sua conta?” Porém, em respeito àquele ser humano respondeu apenas: “Vim apenas buscar um material”. O professor realmente queria trabalhar mas, constrangido, teve que dizer algo que não soasse como uma afronta ao sossego do porteiro. O professor caminhou alguns metros e cruzou com a supervisora e duas coordenadoras pedagógicas que estavam indo embora umas três horas mais cedo. Elas disseram: “Professor, pode ir embora que a coordenação hoje é liberada”. A coordenação deveria ser toda semana, mas a direção dessa escola tem o hábito de deixar que os professores coordenem na escola somente a cada quinze dias. O professor retrucou: “Tudo bem, mas eu quero coordenar aqui”. O professor caminhou mais alguns metros e encontrou o coordenador disciplinar que foi logo lhe dizendo: “Professor, pode ir embora, não tem mais nada na escola hoje não”. Ora, aquele ainda era o segundo horário. Faltavam três horas-aula e os alunos já estavam sendo dispensados. O professou viu-se obrigado a realmente pegar apenas o material necessário e ir coordenar em casa, em prejuízo de um trabalho conjunto com os colegas que poderia colocar em prática a interdisciplinaridade e potencializar o aprendizado dos alunos.
É fato que os baixos salários desanimam os profissionais da educação, porém isso não deveria justificar as horas não trabalhadas, o trabalho medíocre, a realização de atividades pessoais no horário de trabalho e tantas outras coisas que no fim prejudicam o aluno. Mas, não tem nada não. O aluno também achou bom ser liberado mais cedo. Ele nem queria ir à escola mesmo. Enquanto isso, o Brasil segue demandando mão-de-obra especializada. Importamos técnicos, engenheiros e até médicos cubanos.

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