segunda-feira, 13 de abril de 2015

RELIGIÃO E MEIO AMBIENTE

Como a religião pode contribuir com a agenda ambiental? Ações adequadas de proteção ao meio ambiente exigem mais do que práticas isoladas e individuais. É necessário agir coletivamente. As pessoas já articuladas e mobilizadas para a prática da religião podem enriquecer a causa ambiental. Além disso, as religiões, de modo geral, oferecem uma visão de mundo pautada em uma vida humana equilibrada, saudável e feliz, bem como no respeito a todas as formas de vida, porque a existência da vida testemunha e louva ao criador.
A Igreja Católica no Brasil, por exemplo, já realizou inúmeras ações voltadas para o meio ambiente. Poderíamos destacar as Campanhas da Fraternidade, ações em nível nacional realizadas durante o período da Quaresma. A cada ano é abordado um diferente problema social e em alguns dos temas abordados tiveram cunho ambiental. Em 2004, a Campanha da Fraternidade trabalhou o tema “Fraternidade e Água”, pedindo aos fiéis o uso racional e responsável do recurso. Em 2007 abordou o tema “Fraternidade e Amazônia”, chamando a atenção da sociedade brasileira para a necessidade de desenvolvimento econômico e social da região, com respeito ao meio ambiente. Em 2011 o tema foi “Fraternidade e a Vida no Planeta”, visando alertar que os modelos de desenvolvimento adotados pelas sociedades humanas são incompatíveis com a manutenção da vida no planeta. Além das ações das Campanhas da Fraternidade, em muitas paróquias existe a Pastoral do Meio Ambiente com ações locais voltadas para a redução dos impactos ambientais negativos. Sabe-se ainda, de um sacerdote da diocese de Rubiataba em Goiás que recomenda o plantio de árvores aos fiéis como modo de reparação dos pecados após a confissão.
Nem todos os sacerdotes católicos, porém, estão convencidos de que a religião e a causa ambiental podem caminhar juntas. Quando aconteceu a Campanha da Fraternidade sobre a água, questionei a um padre sobre as ações que seriam realizadas em sua paróquia. Ele respondeu que a campanha não seria realizada na paróquia por que “falar sobre água não contribui com a evangelização”, segundo ele. Em outra oportunidade pensei em sugerir a um sacerdote a criação da Pastoral do Meio Ambiente em sua paróquia. Iniciei a conversa questionando qual seria o papel da Igreja diante dos problemas ambientais. Ele respondeu que “a Igreja tem uma preocupação mais urgente que é a salvação das almas”. Diante da resposta, nem consegui prosseguir com a proposta.
          É lamentável que ainda existam visões como essa entre religiosos, quando na verdade, o clamor dos ambientalistas está muito próximo da mensagem pregada pelas religiões. Os apelos pelo consumo consciente e contrários ao consumismo em muito lembram os estilos de vida austeros de Buda, João Batista, Jesus Cristo, Gandhi e tantos outros. O amor à natureza e o respeito à biodiversidade está próximo do amor que São Francisco de Assis demonstrava aos elementos da natureza tratando-os como irmãos e irmãs, ou do respeito a todas as formas de vida demonstrado pelo jainismo, cujos monges utilizam máscaras para não inalar e causar a morte até mesmo de pequenos insetos. A visão ecossistêmica e integrada dos elementos da natureza muito se aproxima da visão holística presente no budismo e outras religiões orientais. Ademais, se não aprendemos a amar a criatura, seremos capazes de amar ao criador? Se não cuidarmos de nosso planeta, será possível evangelizar e levar a salvação aos refugiados do clima, às pessoas em guerra pela água, aos que estarão sofrendo pela falta de toda sorte de recursos?

quarta-feira, 1 de abril de 2015

“TUDO VALE A PENA QUANDO A ALMA NÃO É PEQUENA”

Fernando Pessoa

Hoje entrei em exercício no cargo de Geógrafo na Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Já trabalhei na Caesb como Técnico em Eletrotécnica durante quase seis anos. Agora retorno à companhia como analista. Talvez não tenha o glamour de se tomar posse em um cargo da Câmara dos Deputados ou do Senado, de se tornar promotor, juiz, auditor ou até de se tornar um empresário de sucesso, mas foi uma meta que eu estabeleci há alguns anos e, mesmo não sendo o emprego mais glamouroso, foi o emprego que eu escolhi. Daqui a pouco a meta pode ser outra. O que faz a nossa vida ter sentido são os objetivos que estabelecemos. Mas tenho certeza que vou viver bons momentos como Geógrafo na Caesb.
Não foi fácil atingir essa meta, mas atingi-la fez valer a pena tudo o que fiz na minha vida até agora. Aos treze anos resolvi fazer o curso de Eletricista Industrial do SENAI. Foi um ano e meio de curso no turno contrário ao da escola. Depois resolvi fazer o curso de Técnico em Eletrotécnica. Mais dois anos de estudo. O primeiro, conciliado com o último ano do Ensino Médio. O segundo, com o primeiro ano da faculdade e com o estágio obrigatório do curso técnico. Eu saía de casa às seis da manhã e chegava às onze da noite. Ao terminar a faculdade eu pensava “de que valeu tanto esforço para fazer o curso de eletricista e o de eletrotécnico se agora eu vou trabalhar com geografia?” Essa pergunta me angustiou até eu passar no concurso da Caesb como Técnico em Eletrotécnica, emprego no qual eu ganhava um salário melhor do que o dos empregos de nível superior que eu estava conseguindo até então. Através desse emprego conquistei muitas coisas: carro, imóvel, viagens, melhor qualidade de vida, casamento, filhos, pós-graduação e mestrado. Mas, passados quase seis anos, havia chegado a hora de dar um passo a mais na minha vida profissional.
Em 2012, a Caesb abriu concurso. Uma vaga para Geógrafo. Pensei comigo: “essa vaga é minha”. Uma afirmativa perigosa. Eu já havia ficado em segundo e em terceiro lugar em outros concursos para Geógrafo, mas jamais havia sido nomeado. Para garantir era preciso tirar o primeiro lugar. O trabalho como Técnico em Eletrotécnica, no entanto, estava puxado e eu não estava conseguindo tempo para estudar. Na mesma época, fui nomeado no Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTRANS), para um emprego cuja remuneração era menor, porém, mais tranquilo e com uma carga horária menor. Resolvi sair da Caesb, reduzindo meu salário pela metade, mas podendo me dedicar mais aos estudos. Pensava: “se tempo é dinheiro, então não estou perdendo tanto, por que estou ganhando tempo”. Com o tempo que ganhei pude me dedicar melhor ao concurso.
O concurso foi acirrado, cento e vinte e quatro candidatos para uma vaga. Fiquei apenas um ponto à frente da segunda colocada. Uma doutora em Geografia, com ampla experiência na área, inclusive como professora na UnB. Mas, minha experiência anterior na Caesb me ajudou a resolver muitas questões da prova e os títulos de pós-graduação e mestrado, obtidos durante o período em que trabalhei na empresa, contaram preciosos pontos.

Uma vez eu li em uma reportagem que apenas um por cento dos que se formavam em Geografia conseguem trabalhar como Geógrafo. Não sei se essa estatística é verdadeira, mas sei que poucos daqueles que se formaram comigo exercem a profissão. Agora, mais do que nunca, sinto que valeu a pena ter feito tudo o que fiz na vida. Valeu a pena ter feito o curso de eletricista e o de eletrotécnico. Valeu a pena a experiência anterior na Caesb. Isso abriu as portas para que hoje eu pudesse exercer a profissão de Geógrafo. Agradeço a Deus por ter tornado isso possível e a todos aqueles que estiveram comigo nessa trajetória.