domingo, 28 de setembro de 2014

AS LIÇÕES DAS ÁRVORES DO CERRADO


As árvores do cerrado são sábias. Aos que as sabem interpretar, elas ensinam grandes lições. No auge da estação seca, o azul imenso no céu anuncia que as chuvas ainda tardam chegar. Alguns elementos da paisagem desaparecem em meio à esbranquiçada névoa seca. A noite fria contrasta com o dia escaldante de modo inacreditável. No calor do dia, o fogo parece brotar do chão ou surgir espontaneamente na vegetação rasteira. No meio desse cenário, nem tudo é desolação. Durante a impetuosa seca é que as árvores do cerrado mostram o que têm de melhor. Florescem e dão frutos. Explodem em cores e beleza. Comunicando sabedoria aos que podem entender suas mensagens.
As árvores realizam inúmeros serviços ambientais, mas florescer e dar frutos são a sua principal missão. Aquilo que as árvores do cerrado têm de mais importante para fazer, elas realizam no momento mais difícil. Quando florescem e dão fruto em meio à seca, as árvores do cerrado nos ensinam que é na dificuldade que precisamos dar o melhor de nós. A dificuldade transforma homens e mulheres comuns em homens e mulheres de elevado valor. Apresentar nosso melhor em tempo de bonança é fácil. Legal mesmo é mostrar nosso valor diante da dificuldade. E você, na dificuldade esmorece ou na dificuldade você é mais forte? Você deixa que suas misérias se manifestem ou mostra o que há de bom em você?
Quando nos fortalecemos diante da dificuldade, nos tornamos alento para aqueles que estão próximos de nós. Fazemos com que outras pessoas também consigam vencer as dificuldades. De forma semelhante, as árvores do cerrado aliviam os efeitos da seca em outros seres vivos, oferecem sombra e frescor, alimentam com o néctar de suas flores, com a polpa e as sementes de seus frutos. Como gratidão, recebem dos outros seres a polinização e a dispersão de suas sementes. Um lindo processo colaborativo em que todos saem ganhando, o que nem sempre acontece nas sociedades humanas, nas quais, geralmente, um é explorado por outro.
Quanto mais a seca avança, mais diminui o nível dos lençóis freáticos. Diante da escassez da água, as árvores do cerrado precisam lançar raízes mais profundas. Como é a raiz que nutre e sustenta a planta, raízes mais profundas significam árvores mais fortes, mais seguras. Será que nós, diante da escassez, permanecemos mais firmes naquilo que acreditamos ou abandonamos nossas crenças e valores? Quando as condições externas são desfavoráveis, as árvores do cerrado deixam de crescer para fora e crescem para dentro. Será que na escassez nos tornamos introspectivos, humanamente e espiritualmente melhores?
Parte das espécies do cerrado, antes de florescerem, perdem todas as folhas, como é o caso do ipê amarelo. No período de seca, retiram os nutrientes das folhas e conduzem esses nutrientes para os tecidos que, naquele momento, são mais importantes. Sabem que, logo que possível, poderão restituir as folhas. As folhas que caem adubam o solo e permitem outros indivíduos possam se nutrir, especialmente os mais jovens, que não possuem raízes profundas e buscam nutrientes apenas na superfície. Assim como as árvores, que perdem as folhas para se concentrar no que mais necessário, será que sabemos priorizar as atividades mais importantes de nossa vida? Como as árvores que jogam as folhas fora, será que somos desapegados o suficientes para jogar fora velhos conceitos e paradigmas? Será que conseguimos nos desfazer daquilo que nos é supérfluo ou do que já não precisamos mais? Será que, assim como as árvores que nutrem aos outros com as folhas caídas, temos a consciência de que aquilo que está nos sobrando não é nosso, ou seja, que aquilo que já não é importante para nós pode ser essencial a outrem, pode suprir a necessidade do outro?
Logo após as primeiras chuvas, a vegetação do cerrado muda completamente a sua fisionomia. Os tons desbotados, cinzas e pastéis rapidamente dão lugar a um verde vibrante. A vegetação do cerrado tem uma enorme capacidade de se recompor. Isso nos ensina, que depois de atravessarmos um momento ruim, não adianta ficar lamentando e prolongando a tristeza. É preciso levantar a cabeça, esquecer as coisas ruins e trabalhar com afinco para transformar as coisas ruins em coisas boas.
As árvores do cerrado, como qualquer outra árvore, conseguem viver com muito pouco. Tornam-se enormes, vivem centenas de anos, apenas com aquilo que podem obter ao seu redor. Quanto a nós, pelo contrário, nem sempre estamos satisfeito com o que temos. Estamos sempre a considerar que só podemos ser feliz com algo que ainda não possuímos.
Há cerca de 380 milhões de ano as árvores passam a existir. Retiraram o carbono da atmosfera tornando o mundo habitável para outros seres. Alimentam outras espécies. Servem como moradia ou como amparo. Retiram a água do subterrâneo e devolvem para a atmosfera, contribuindo para as chuvas. Filtram as impurezas do ar e da água. Quietas e discretas, sua existência torna melhor a existência dos outros. E, mesmo na dificuldade, sem dizer uma palavra, muito nos ensinam.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

OS BIOINDICADORES DE ALGO ERRADO NA CAESB



Algo cheira mal na Caesb e não é só o esgoto. Até a natureza apresenta bioindicadores de que há algo de errado na empresa. Diz-se que um ser vivo é um bioindicador quando o seu crescimento desordenado ou o seu desaparecimento indica um desequilíbrio ecológico. Por exemplo, o crescimento desordenado da mamona no Cerrado normalmente indica degradação do solo, e o desaparecimento de anuros (sapos, pererecas e rãs) de uma lagoa pode significar poluição da água.
Há mais de dois anos verifico que alguma coisa está errada no local mostrado nas fotos acima, na Avenida Areal, em Águas Claras. Mesmo durante a seca, o capim mantém um verde exuberante, contrastando como a vegetação seca ao redor. É fácil perceber que há um derramamento de esgoto no local, mas as pessoas que cuidam dos encanamentos da Caesb ainda não tomaram providência. O capim está sendo um bioindicador de que maus serviços estão sendo prestados pela Companhia de Saneamento Ambiental do DF, a Caesb.
A manutenção do sistema de esgotamento sanitário é onde a empresa mais concentra funcionários terceirizados. A empresa derrama dinheiro como água em contratos com empreiteiras que não trabalham adequadamente. As fotos acima mostram isso. Sequer estão sendo feitas inspeções para verificar vazamentos na rede, tanto que há mais de dois anos esse vazamento existe e não foi consertado. O mais impressionante é que o vazamento fica em um local de grande circulação, a menos de um quilômetro da sede da Caesb.
É uma estratégia comum manter contratos caros em empresas públicas, associados a serviços de má qualidade, para justificar a privatização. Nessa situação o governo se vê obrigado a injetar dinheiro público na empresa para depois argumentar que a empresa dá prejuízo. Isso tem acontecido em vários países do mundo, especialmente na América Latina e na África, que têm entregado seus serviços essenciais na mão de empresas de países ricos. No Brasil, vários municípios já privatizaram seus serviços de saneamento básico, inclusive a capital Cuiabá.
O documentário “O mundo global visto pelo lado de cá” mostra que em 2000 o governo, pressionado pelo FMI e pelo Banco Mundial, privatizou a água potável na região de Cochabamba, na Bolívia. Houve grande pressão popular com passeatas e manifestações até que o governo voltou atrás. Em Brasília, os serviços de saneamento ainda não foram privatizados, mas os acontecimentos apontam para essa possibilidade. A falta de informação  das pessoas sobre o tema faz com a que apenas os servidores efetivos da empresa estejam em estado de alerta. Há anos os trabalhadores lutam contra as terceirizações e o sucateamento da empresa. Este ano, fizeram a maior greve da história da categoria e poucos dias após anunciaram nova greve, que pode ser iniciada a qualquer momento. A companhia ameaça retirar direitos conquistados pelos trabalhadores e não contrata os servidores aprovados no último concurso público realizado, nem mesmo para suprir as vagas anunciadas no edital. A empresa hoje alega dificuldades financeiras, mas poucos meses atrás anunciava, orgulhosa, crescentes recordes de arrecadação, advindos da ligação de novos consumidores à sua rede e da reclassificação das unidades consumidoras, muitas das quais passaram a pagar o dobro pela água e pela coleta de esgoto,
Na contramão da dificuldade financeira alegada, os trabalhadores denunciam desperdício de material, terceirizações caras e desnecessárias, pesados gastos com cargos políticos e comissionados, excessivos níveis hierárquicos e cargos de chefia, custas judiciais e indenizações trabalhistas provocadas pela má gestão. Em relação aos concursados aprovados e não contratados, o Ministério Público autuou a empresa. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) obriga a contratação, mas a empresa prefere pagar multas a nomear os concursados. Enquanto isso, prorrompem-se escândalos como o de comissionados que não comparecem no local de trabalho, o do terceirizado morto na adutora da EPTG após mais de vinte quatro horas de trabalho ininterrupto, o dos que cumprem expediente em gabinetes políticos e o caso de um servidor que deixou a empresa no Plano de Demissão Voluntária (PDV), voltou para a empresa como assessor da presidência, com o salário de mais de vinte mil reais, e ainda acumula o cargo de confiança de superintendente. Sem falar no atual presidente, que é diretor de uma das maiores empreiteiras que prestam serviço para a Caesb.
Como até a natureza vem mostrando, a Caesb não está bem. À população sobra o aumento da conta, a má qualidade dos serviços prestados, o odor do esgoto derramado pelas ruas, a poluição dos recursos hídricos e a ameaça de que a água, um de seus direitos essenciais, um recursos vital, seja subordinado a interesses econômicos.