sábado, 12 de dezembro de 2015

O SAL DO RIO DOCE

     Certo fotógrafo mineiro correu o mundo retratando as diferentes condições da vida humana. Fez um belíssimo trabalho, mas voltou para casa consternado com as mazelas que testemunhou. Reclusou-se no sítio da família onde permaneceu algum tempo em amarga depressão, até resolver que não podia ficar para sempre naquela situação.
     Empenhou-se na tarefa de fazer algo bom para o mundo. Decidiu começar pelo quintal de casa e recuperou a vegetação do sítio. Encravado em uma das regiões mais devastadas do Brasil pela agricultura extensiva, o sítio voltou a ter verde, os animais votaram e até a água, que andava escassa, voltou a jorrar nas nascentes.
     Voltaram também a pujança e a vitalidade do fotógrafo, que tornou a viajar pelo mundo. Dessa vez, retratando os sinais de que o mundo pode se tornar um lugar melhor. A nova tarefa trouxe paz e alegria. Agora queria mais do que restaurar o próprio sítio. Planejou restaurar toda uma bacia hidrográfica, no ambicioso projeto de plantar mais de cem mil mudas de árvore nas nascentes de um rio, ao longo de vinte e cinco anos.
     O fotógrafo Sebastião Salgado, além de ser o gênio criador das exposições “Revivendo o Êxodos” e “Gênesis”, também queria recuperar o Rio Doce. A ineficiência do Estado na tarefa de fiscalizar e a irresponsabilidade das mineradoras da região, no entanto, apunhalaram fatalmente o rio, que jaz fétido e sem vida. Mataram o Rio Doce.
     Como estará o coração do fotógrafo neste momento? Cairá novamente em melancolia, vislumbrando as atrocidades que o ser humano é capaz ou a esperança que o acometeu nos últimos anos será maior? Terá forças para retomar o projeto, agora muito mais urgente do que antes, de recuperar o Rio Doce? O rio antes precisava ser revitalizado. Hoje, precisa do mais poderoso dos milagres, o milagre da ressurreição.

Nota:O documentário “O Sal da Terra” (2014) conta a história do fotógrafo Sebastião Salgado.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

FILHOS: SEMENTES DA ESPERANÇA


     A madrugada do dia 29 de novembro foi agitada na maternidade do Hospital Santa Luzia, em Brasília. Nasceram seguidamente sete bebês. Entre eles estava a minha filha mais nova. Esses bebês vêm ao mundo em tempos difíceis. O crescimento do extremismo religioso no mundo repete as maiores atrocidades que já ocorreram na história da humanidade: torturas, sequestros, extermínio, crucificação, cremação de pessoas vivas, terrorismo, guerra. Outro grave problema é o aquecimento global, contra o qual não há sinais de ações contrárias em grande escala de forma efetiva em um futuro próximo, com sérias consequências para a biodiversidade do planeta e para as sociedades humanas. Nos próximos anos, um bilhão de pessoas se tornarão refugiados do clima, isto é, aqueles que deverão abandonar suas casas devido a catástrofes ambientais causadas pelo aquecimento global. O Brasil está afundado em uma crise político-econômica que, na verdade, é consequência de uma crise ética e moral, além de sofrer as consequências do maior caso de corrupção da história da humanidade e do maior crime ambiental da história do país, com milhares de pessoas sem água, mesmo morando às margens de um dos mais importantes rios da região Sudeste.
     Diante do quadro desolador, muitas pessoas se recusam a ter filhos. Eu também já esbocei indagações do tipo “Como colocar filho em um mundo tão cheio de maldades?” Não planejei nenhum dos meus três filhos. Vieram por razões que alguns chamam de acaso ou destino. Eu prefiro chamar de providência divina. Providência que me fez mudar o pensamento. Hoje percebo que as pessoas boas devem se multiplicar em filhos. Pessoas más estão trazendo filhos ao mundo, ensinam suas maldades e as multiplicam sobre a Terra. O mundo será melhor, quanto mais pessoas boas estiverem dispostas a ter filhos, participar ativamente de sua educação e transmitir-lhes seus valores. Assim, cada um de seus filhos será semente de um mundo melhor.
     Muitos dos que resolvem ter filhos querem ter apenas um. “Filho dá trabalho”, dizem alguns. Outros argumentam que “já tem gente demais no mundo, a natureza não aguenta mais pessoas”. Realmente, se mantivermos o consumismo e o desperdício nos padrões atuais o planeta não suportará. Porém, as teorias neomalthusianas esbarram no fato de que hoje existem sete bilhões de pessoas no mundo, é produzida comida suficiente para dez bilhões e mesmo assim um bilhão de pessoas passam fome. As projeções mostram que a população mundial deverá chegar aos onze bilhões em 2050 quando, então, entrará em declínio. O desafio que temos não é mais o da produção de alimentos, mas o da justa distribuição e combate ao desperdício. Não ter ou ter apenas um filho tem um lado negativo. A China já descobriu isso e aboliu a política do filho único. Além de uma sociedade sem os conceitos de tio, primo e sobrinho, a economia pode se estagnar pela escassez de mão de obra. Os países com uma taxa de fecundidade abaixo de três filhos por mulher podem desaparecer em cem ou duzentos anos. Estudos recomendam a taxa de fecundidade de três filhos para manter uma população estável. É por isso que países como o Canadá e a Dinamarca incentivam a imigração ou pagam para os casais terem filhos. Não é sem fundamento que o Papa Francisco disse aos casais católicos que três é uma boa quantidade de filhos.

     Não devemos temer ter filhos devido ao receio de que não tenham um mundo bom para viver. Devemos tê-los para tornar o mundo melhor. Ter um só é pouco, dois é bom, três é melhor ainda.

sábado, 31 de outubro de 2015

ROLLEMBERG CONTINUA SENDO O ROLA

          Rollemberg vivia uma vida tranquila e sossegada. O papai, juiz e ex-deputado federal, garantia tudo o que ele precisava. Restava ao garotão gastar o tempo com os amigos em festas, passeios ao sítio do pai, banhos no riacho e bebedeiras – alguns dizem até que usavam umas coisas a mais. Uma vida sem compromissos, irresponsável e inconsequente. Nesta época, nosso atual governador era carinhosamente chamado pelos amigos de "Rola".
          A vida seguiu assim até que o Rola engravidou a namorada. O pai o obrigou a casar e para que o filho conseguisse honrar o papel de um pai de família, usou de sua influência para lhe conseguir um cargo de analista no Senado Federal – mesmo antes do filho obter o diploma de graduação.
          Rollemberg ingressou no partido do pai, o PSB, onde permanece até hoje. Como a vida sempre sorriu para o Rola, mesmo sem ter sido eleito, obteve o primeiro mandado de Deputado Distrital devido à licença de Wasny de Roure, de quem era suplente. E agora, recebeu no colo o Governo do Distrito Federal, mesmo sem ser uma unanimidade entre os brasilienses, devido ao caos político na capital provocado pelas principais forças políticas locais. De Deputado Distrital a Governador, Rollemberg também foi Secretário de Estado de Turismo, Secretário Nacional de Inclusão Social, Deputado Federal e Senador.

          Mesmo sem ter batalhado muito para conseguir as coisas, Rollemberg já deveria ter alcançado maturidade. No entanto, o senhor governador cada dia mostra mais que nunca deixou de ser o Rola. Continua sem compromisso. Sem compromisso com seu eleitor, desonrando promessas de campanha. Sem compromisso com os ideais de seu partido e com os partidos de sua coligação. Continua irresponsável, descumprindo decisões judiciais e atrasando salários dos servidores públicos. Continua inconsequente, ao invés de administrar a crise limita-se a apontar as falhas da administração anterior. O governador tem uma oportunidade excelente de mostrar que amadureceu e que é um bom administrador. É na crise que precisamos do bom administrador. Na abundância de recursos, qualquer besta consegue administrar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Brasília pode ficar sem água como São Paulo?

Quando digo às pessoas que trabalho na Caesb, Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, imediatamente recebo a pergunta: “Temos risco de ficar sem água como está acontecendo em São Paulo”? É bom ouvir isso. A pergunta mostra que, de maneira geral, as pessoas estão preocupadas com a gestão dos recursos hídricos em nossa cidade. E estão preocupadas por que o assunto é realmente sério. A água é um bem essencial e fundamental à vida. Para evitar uma crise hídrica como a de São Paulo é essencial que cada cidadão faça a sua parte. Porém, nem todas as pessoas se deram conta da importância de um uso consciente da água.
Até mesmo dentro da Caesb, onde os empregados recebem maiores informações a respeito do uso consciente da água, ainda existem pessoas que não foram sensibilizadas. Uma vez um colega me disse o seguinte: “Eu não sei por que se fala tanto em economizar água, se todo ano a chuva traz a água de volta”. Essa ideia está completamente equivocada e afirmo isso por que tenho observado há alguns anos a variação do nível na represa do Rio Descoberto, responsável pela água consumida por 65% da população do DF. A cada ano está demorando mais para o reservatório atingir a cota máxima e começar a verter. Há alguns anos atrás era comum o reservatório começar a verter em outubro. Ou seja, a estação das chuvas se iniciava em setembro e com menos de dois meses de chuva a represa já estava cheia. Logo, o reservatório passou a verter em novembro. Depois, em dezembro. Cada ano demorando mais. Neste ano de 2015, já era abril quando a água começou a verter e isso durou somente alguns dias. No passado, ficava vertendo por vários meses.
Todo ano o regime de chuvas varia um pouco. As vezes demora mais a começar a chover. As vezes a chuva vai embora mais cedo. Eu sempre me perguntei o que aconteceria no DF se a estação seca se prolongasse muito. Se em um ano a chuva fosse embora mais cedo e demorasse muito a voltar. Será que teríamos água suficiente para aguentar uma seca prolongada? Já testemunhei o reservatório atingir uma cota apenas 90 centímetros acima do volume morto, a partir do qual, em tese (digo em tese por que em São Paulo este volume está sendo consumido), não poderíamos mais retirar água.
Além da influência climática, outro fator preocupante no DF é o assoreamento dos reservatórios. Toda barragem tem uma vida útil. Com a entrada de sedimentos, cada vez mais sua capacidade é reduzida. Nossos reservatórios são antigos e já estão bastante assoreados. Algumas pessoas dizem: “basta dragar a areia e recuperar a capacidade do reservatório”. Mas isso não é tão simples. Além de ser uma operação cara, ao realizar a dragagem, a qualidade da água é prejudicada, podendo se tornar imprópria para o consumo ou exigindo um tratamento que a nossas Estações de Tratamento de Água não poderá oferecer.

Medidas de proteção dos nossos recursos hídricos precisam ser tomadas e cada um precisa fazer sua parte economizando água. A situação de crise econômica que estamos vivendo é uma boa oportunidade para a mudança de postura. Uma das formas de poupar dinheiro é gastando menos água. Também é possível implementar reservatórios para a água de reuso e para aproveitar a água da chuva. Observe as normas específicas para este tipo de instalação no site da Caesb, onde você poderá encontrar também dicas para economia de água e material educativo. Faça sua parte.

sábado, 30 de maio de 2015

PARABÉNS GEÓGRAFOS!


Ontem, 29/05, foi o dia do geógrafo. Parabenizo a todos os colegas de profissão! É uma vitória poder trabalhar como geógrafo no atual cenário de desvalorização desse profissional e consequente escassez de empregos. O geógrafo coloca seu conhecimento a serviço da pesquisa, da gestão e do planejamento. Atividades relegadas ao segundo plano na maioria das empresas e instituições públicas do Brasil. Se junta a esse fato o total desconhecimento dos recrutadores de Recursos Humanos sobre as atividades desenvolvidas pelo geógrafo. Então, em detrimento do geógrafo, contratam profissionais de outras formações, que muitas vezes por não terem a formação específica, não desempenham as atividades com toda competência. A população, em geral, também conhece pouco o potencial do geógrafo. É comum ouvir, por exemplo, “Ah, você é geógrafo? Então, qual é a capital do Uzbequistão?” Ou ainda, “Você é geógrafo? Onde você dá aula?” Esclareço que geógrafo não é atlas e que, sim, podemos lecionar geografia, mas não é só isso que fazemos.
A lei federal nº 6.664/1979 e resoluções do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) e dos Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia (CREA’s) permitem que o geógrafo atue nas seguintes atividades: elaboração de estudos e relatórios de impacto ambiental (EIA’s e RIMA’s), plano e relatório de controle ambiental (PCA e RCA); elaboração de planos diretores urbanos, rurais e regionais; elaboração e gerenciamento de cadastros rurais e urbanos; estruturação e reestruturação dos sistemas de circulação de pessoas, bens e serviços; pesquisa de mercado e intercâmbio regional e inter-regional; delimitação e caracterização de regiões para planejamento; delimitação do espaço territorial municipal, distrital e regional; estudos populacionais e geoeconômicos; mapeamento básico e temático; elaboração de cartas de declividade e perfil de relevo; cálculo de áreas; na transformação e cálculo de escalas; locação de pontos ou áreas por coordenadas geográficas; interpretação de fotografias aéreas e imagens de satélite; implantação e gerenciamento de Sistemas de Informações Geográficas (SIG), geoprocessamento e cartografia digital; na delimitação e plano de manejo de bacias hidrográficas; avaliação e estudo do potencial de recursos hídricos; controle de escoamento, erosão e assoreamento dos cursos d’água; caracterização do meio físico; elaboração de planos de recuperação de áreas degradadas; estudos e pesquisas geomorfológicas; estudos do clima; cálculo de energia do relevo; levantamento do potencial turístico; projetos e serviços de turismo ecológico.
Recentemente estive empenhado na luta para que a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) ampliasse a quantidade de geógrafos em seu quadro de profissionais, por que conheço a empresa e sei da necessidade. Inicialmente foram escritas cartas aos diretores da empresa, que simplesmente ignoraram, não deram resposta alguma. Depois foi realizada uma reunião com o presidente da empresa, que disse que a Caesb não precisa de geógrafos por que é uma empresa, segundo ele, de “engenharia” e não de “meio ambiente”, ignorando os serviços de saneamento ambiental prestados pela empresa e que o geógrafo faz parte do Conselho de Engenharia e Agronomia, e suas atividades, portanto, fazem parte das atividades de engenharia. O lamentável episódio somente reforça a desvalorização da profissão. As soluções para os problemas da sociedade são sempre apresentadas na forma de investimentos em obras faraônicas que beneficiam empreiteiros e grandes grupos econômicos. Nesse cenário, não é interessante um profissional que apresenta soluções alternativas.

É preciso que o geógrafo reaja ao cenário desfavorável. Lute para a criação de vagas e o preenchimento das vagas existentes e não ocupadas nas empresas e nos órgãos públicos. Faça conhecer sua profissão no contato com as pessoas e através da realização de eventos. Seja empreendedor, exercendo sua profissão como profissional liberal ou abrindo empresa para prestação de serviços no campo da geografia. E, principalmente, amplie o sentimento de classe. Profissionais mais valorizados, como médicos, advogados e engenheiros, têm o mérito de manter um elevado sentimento de classe, manifestada em conselhos, ordens e associações profissionais fortalecidas. As associações de geógrafos, pelo contrário, pouco fazem por seus profissionais e por isso muitos não se associam. Como consequência, a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) definha e a Associação Profissional de Geógrafos (APROGEO) não consegue sair do papel em muitos estados. Geógrafos do Brasil, uni-vos!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

RELIGIÃO E MEIO AMBIENTE

Como a religião pode contribuir com a agenda ambiental? Ações adequadas de proteção ao meio ambiente exigem mais do que práticas isoladas e individuais. É necessário agir coletivamente. As pessoas já articuladas e mobilizadas para a prática da religião podem enriquecer a causa ambiental. Além disso, as religiões, de modo geral, oferecem uma visão de mundo pautada em uma vida humana equilibrada, saudável e feliz, bem como no respeito a todas as formas de vida, porque a existência da vida testemunha e louva ao criador.
A Igreja Católica no Brasil, por exemplo, já realizou inúmeras ações voltadas para o meio ambiente. Poderíamos destacar as Campanhas da Fraternidade, ações em nível nacional realizadas durante o período da Quaresma. A cada ano é abordado um diferente problema social e em alguns dos temas abordados tiveram cunho ambiental. Em 2004, a Campanha da Fraternidade trabalhou o tema “Fraternidade e Água”, pedindo aos fiéis o uso racional e responsável do recurso. Em 2007 abordou o tema “Fraternidade e Amazônia”, chamando a atenção da sociedade brasileira para a necessidade de desenvolvimento econômico e social da região, com respeito ao meio ambiente. Em 2011 o tema foi “Fraternidade e a Vida no Planeta”, visando alertar que os modelos de desenvolvimento adotados pelas sociedades humanas são incompatíveis com a manutenção da vida no planeta. Além das ações das Campanhas da Fraternidade, em muitas paróquias existe a Pastoral do Meio Ambiente com ações locais voltadas para a redução dos impactos ambientais negativos. Sabe-se ainda, de um sacerdote da diocese de Rubiataba em Goiás que recomenda o plantio de árvores aos fiéis como modo de reparação dos pecados após a confissão.
Nem todos os sacerdotes católicos, porém, estão convencidos de que a religião e a causa ambiental podem caminhar juntas. Quando aconteceu a Campanha da Fraternidade sobre a água, questionei a um padre sobre as ações que seriam realizadas em sua paróquia. Ele respondeu que a campanha não seria realizada na paróquia por que “falar sobre água não contribui com a evangelização”, segundo ele. Em outra oportunidade pensei em sugerir a um sacerdote a criação da Pastoral do Meio Ambiente em sua paróquia. Iniciei a conversa questionando qual seria o papel da Igreja diante dos problemas ambientais. Ele respondeu que “a Igreja tem uma preocupação mais urgente que é a salvação das almas”. Diante da resposta, nem consegui prosseguir com a proposta.
          É lamentável que ainda existam visões como essa entre religiosos, quando na verdade, o clamor dos ambientalistas está muito próximo da mensagem pregada pelas religiões. Os apelos pelo consumo consciente e contrários ao consumismo em muito lembram os estilos de vida austeros de Buda, João Batista, Jesus Cristo, Gandhi e tantos outros. O amor à natureza e o respeito à biodiversidade está próximo do amor que São Francisco de Assis demonstrava aos elementos da natureza tratando-os como irmãos e irmãs, ou do respeito a todas as formas de vida demonstrado pelo jainismo, cujos monges utilizam máscaras para não inalar e causar a morte até mesmo de pequenos insetos. A visão ecossistêmica e integrada dos elementos da natureza muito se aproxima da visão holística presente no budismo e outras religiões orientais. Ademais, se não aprendemos a amar a criatura, seremos capazes de amar ao criador? Se não cuidarmos de nosso planeta, será possível evangelizar e levar a salvação aos refugiados do clima, às pessoas em guerra pela água, aos que estarão sofrendo pela falta de toda sorte de recursos?

quarta-feira, 1 de abril de 2015

“TUDO VALE A PENA QUANDO A ALMA NÃO É PEQUENA”

Fernando Pessoa

Hoje entrei em exercício no cargo de Geógrafo na Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Já trabalhei na Caesb como Técnico em Eletrotécnica durante quase seis anos. Agora retorno à companhia como analista. Talvez não tenha o glamour de se tomar posse em um cargo da Câmara dos Deputados ou do Senado, de se tornar promotor, juiz, auditor ou até de se tornar um empresário de sucesso, mas foi uma meta que eu estabeleci há alguns anos e, mesmo não sendo o emprego mais glamouroso, foi o emprego que eu escolhi. Daqui a pouco a meta pode ser outra. O que faz a nossa vida ter sentido são os objetivos que estabelecemos. Mas tenho certeza que vou viver bons momentos como Geógrafo na Caesb.
Não foi fácil atingir essa meta, mas atingi-la fez valer a pena tudo o que fiz na minha vida até agora. Aos treze anos resolvi fazer o curso de Eletricista Industrial do SENAI. Foi um ano e meio de curso no turno contrário ao da escola. Depois resolvi fazer o curso de Técnico em Eletrotécnica. Mais dois anos de estudo. O primeiro, conciliado com o último ano do Ensino Médio. O segundo, com o primeiro ano da faculdade e com o estágio obrigatório do curso técnico. Eu saía de casa às seis da manhã e chegava às onze da noite. Ao terminar a faculdade eu pensava “de que valeu tanto esforço para fazer o curso de eletricista e o de eletrotécnico se agora eu vou trabalhar com geografia?” Essa pergunta me angustiou até eu passar no concurso da Caesb como Técnico em Eletrotécnica, emprego no qual eu ganhava um salário melhor do que o dos empregos de nível superior que eu estava conseguindo até então. Através desse emprego conquistei muitas coisas: carro, imóvel, viagens, melhor qualidade de vida, casamento, filhos, pós-graduação e mestrado. Mas, passados quase seis anos, havia chegado a hora de dar um passo a mais na minha vida profissional.
Em 2012, a Caesb abriu concurso. Uma vaga para Geógrafo. Pensei comigo: “essa vaga é minha”. Uma afirmativa perigosa. Eu já havia ficado em segundo e em terceiro lugar em outros concursos para Geógrafo, mas jamais havia sido nomeado. Para garantir era preciso tirar o primeiro lugar. O trabalho como Técnico em Eletrotécnica, no entanto, estava puxado e eu não estava conseguindo tempo para estudar. Na mesma época, fui nomeado no Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTRANS), para um emprego cuja remuneração era menor, porém, mais tranquilo e com uma carga horária menor. Resolvi sair da Caesb, reduzindo meu salário pela metade, mas podendo me dedicar mais aos estudos. Pensava: “se tempo é dinheiro, então não estou perdendo tanto, por que estou ganhando tempo”. Com o tempo que ganhei pude me dedicar melhor ao concurso.
O concurso foi acirrado, cento e vinte e quatro candidatos para uma vaga. Fiquei apenas um ponto à frente da segunda colocada. Uma doutora em Geografia, com ampla experiência na área, inclusive como professora na UnB. Mas, minha experiência anterior na Caesb me ajudou a resolver muitas questões da prova e os títulos de pós-graduação e mestrado, obtidos durante o período em que trabalhei na empresa, contaram preciosos pontos.

Uma vez eu li em uma reportagem que apenas um por cento dos que se formavam em Geografia conseguem trabalhar como Geógrafo. Não sei se essa estatística é verdadeira, mas sei que poucos daqueles que se formaram comigo exercem a profissão. Agora, mais do que nunca, sinto que valeu a pena ter feito tudo o que fiz na vida. Valeu a pena ter feito o curso de eletricista e o de eletrotécnico. Valeu a pena a experiência anterior na Caesb. Isso abriu as portas para que hoje eu pudesse exercer a profissão de Geógrafo. Agradeço a Deus por ter tornado isso possível e a todos aqueles que estiveram comigo nessa trajetória.

domingo, 15 de março de 2015

SERIA BOM

Seria bom se o preço do diesel e da gasolina aumentasse, não para tentar recuperar a petroleira surrupiada, mas para incentivar o uso do hidrogênio (que deveria estar disponível na bomba), do carro elétrico (que deveria estar na loja e ter postos de recarga), da bicicleta (desde que houvesse ciclovias) e do transporte público (que deveria funcionar).
Seria bom se a conta de energia aumentasse não por causa do acionamento das termelétricas, mas para financiar uma revolução energética que ampliasse o uso da energia eólica e solar.
Seria bom se estivéssemos economizando água e guardando água da chuva não por que a represa já estivesse vazia, mas para prevenir que isso chegasse a acontecer.
Seria bom se o agronegócio não estivesse quebrando por causa da falta de infraestrutura para escoar a produção, mas para incluir o pequeno agricultor no processo produtivo.
Seria bom se os preços dos alimentos subissem desde que fossem aqueles produzidos de forma extensiva. Por outro lado, os preços dos produtos orgânicos deveriam estar sendo reduzidos.
Seria bom que as pessoas tivessem estudado história ou que não tivessem esquecido o que estudaram antes de pedir por uma intervenção militar.
Seria bom que meu povo deixasse de ser corrupto. Que não usasse o carro da empresa para fins particulares. Que não imprimisse a apostila do cursinho na impressora do trabalho. Que não furasse a fila. Que não sentasse na cadeira do idoso. Só assim, purificado da corrupção pela raiz, não permitiria que corruptos chegassem ao poder.
Seria bom se tivéssemos um governo que, ao invés de ignorar os problemas, os reconhecesse, para poder enfrentá-los. Pois só é possível resolver os problemas, quando se reconhece sua existência.

Seria bom se não tivéssemos que sair às ruas para expor os problemas e assim pudéssemos sair às ruas para festejar, para encher as procissões, para encontrar os amigos, para ter um momento lazer ou praticar um esporte. Mas, para isso, seria necessário um povo que soubesse que o domingo da eleição é mais importante que o domingo do encontro marcado pelo Facebook e pelo Whats App.