sábado, 8 de agosto de 2020

VÁ EM PAZ, VÓ!


Lembro saudoso das férias que passei em tua casa. Fiquei lá por mais de mês. Cuidaste de mim tão bem, sempre atenta às mínimas necessidades. Não só às nossas, dos netos. Ou as dos filhos. Mas de toda comunidade. Quando cheguei lá, estranhei aqueles rolos de algodão, aqueles litros de álcool e iodo, aquelas caixas de ataduras na estante. Tudo em tamanho que eu nunca havia visto antes. Também haviam resquícios de que ali, algum dia houvera aulas. Logo percebi que tua casa, na verdade, era o posto de saúde daquele lugarejo e que, algum dia, também havia sido a escola. O Estado havia confiado a ti a missão de representá-lo naquela comunidade. Não só o Estado, também a Igreja. Eras tu quem fazia a Celebração da Palavra, encomendava os corpos, cuidava da saúde física e espiritual das pessoas. Acumulava com destreza as funções de mãe e esposa, de vó e bisavó, de professora e enfermeira, de líder comunitária e religiosa, de agricultora e cozinheira...A tua casa, vó, era fonte de cura. Curava a ignorância com lousa e giz. Ah, vó, que interessante, além de mãe, eras a professora de teus filhos. Sei que na época da "praga", os enfermos ficaram hospedados na tua casa. Cuidavas deles mesmo correndo o risco de que teus próprios filhos ficassem doentes. Muitos voltaram curados para suas famílias. Sabe, vó? Eu também fui curado lá.  Foi lá que tive minha última crise asmática. Seus remédios caseiros me curaram definitivamente. Lá se vão vinte e poucos anos sem crise.Foste  um exemplo de ser humano. Foste capaz das mais profundas caridades. Capaz até de oferecer um de teus filhos para um casal de pais que não os podia ter. Até tentamos seguir o seu exemplo, mas me vejo incapaz de fazer tudo igual a ti. Tu deste conta de quase duas dezenas de filhos, eu sofro para cuidar de três. Tu cuidavas de casa, das aulas, dos doentes, da roça... Eu mal dou conta do meu trabalho. Tu cuidavas da espiritualidade de uma comunidade. Eu mal consigo ir à missa aos domingos.Sei, vovó, que, em algum momento, tiveste antipatia pela minha mãe. Mas isso não importa. Sei que era apenas zelo pelo teu próprio filho. Qual a mãe que não sente ciúme do filho e desconfia de quem dele se aproxima?Eu sempre imaginei, vó, que quando tu morresses a gente ia fazer uma grande carreata daqui para o Maranhão e haveria um funeral com muita gente no Sindô, digno de sua pessoa. Mas, infelizmente, a epidemia do coronavírus nos tirou isso. Enfim, vovó, descansaste. Descansaste de tanta labuta e do sofrimento pelo qual passou nesses últimos anos. Agora recebes a justa e merecida coroa que Deus reservou aos justos. Vá em paz!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Opinião: Novo Marco do Saneamento

Effluent - Wikipedia

     Perguntaram minha opinião sobre o novo marco do saneamento. Aproveito deste canal para compartilhá-la com os amigos. Para mim, o novo marco cria regras diferentes para empresas públicas e privadas e favorece a privatização do setor. A diferença é injusta, lógico. E, sou contra a privatização, não por ser empregado do setor mas, como cidadão, percebo que não é a melhor alternativa. Considero que qualquer dos serviços essenciais (água, energia, transporte...) deve permanecer na mão do Estado,  para garantir o acesso de toda a população sem cobranças abusivas e a continuidade da prestação do serviço. Mas é lógico que o saneamento precisa ser debatido no Brasil. Estamos com um defasamento de décadas no setor. Em um país tão rico  em recursos hídrico, a água chega com dificuldade à maioria das pessoas e o esgoto é raridade. Mesmo permanecendo público, é preciso resolver problemas de financiamento e gestão. Aliás, a gestão pública como um todo precisa ser  repensada em nosso país. A precariedade do setor de saneamento apenas reflete nossa dificuldade de gestão, aliada às políticas eleitoreiras, ausência de planejamento e corrupção estrutural. A defasagem é grande por que se acumulou tudo o que se deixou de investir ao longo do tempo e o que nos foi roubado.
     Chegamos ao século XXI sem resolver os problemas do século passado. Enquanto outras países já debatem para suas cidades internet das coisas, monitoramento da segurança por software, tráfego autômato, internet wi-fi pública e gratuita, nós ainda debatemos problemas de infraestrutura básica como saneamento, drenagem e pavimentação. É triste, mas ainda são problemas que precisam ser resolvidos. Quem paga a conta? O Estado não tem a grana.
     Acho que o Estado passará a ter dinheiro para os investimentos necessários quando passar a arrecadar mais. Não com o aumento dos impostos, mas com o aumento do número dos que contribuem. Não há outra saída para o país que não seja um crescimento sistemático e sustentado da economia. A inclusão de excluídos na economia, criação de empregos, fomento ao empreendedorismo... Mas, para resolver isso, precisamos resolver a profunda crise política na qual nos encontramos. Enquanto estivermos imersos na polarização, não vamos conseguir viabilizar um grupo político capaz de promover a revolução necessária, infelizmente.
     A discussão do saneamento, de maneira isolada, como está sendo feita no Congresso é como tratar os sintomas, sem tratar a doença. O saneamento precisa ser debatido mas, como fazê-lo sem um debate mais amplo dos problemas que causam a crise do saneamento e tantas outras crises?