sábado, 12 de dezembro de 2015

O SAL DO RIO DOCE

     Certo fotógrafo mineiro correu o mundo retratando as diferentes condições da vida humana. Fez um belíssimo trabalho, mas voltou para casa consternado com as mazelas que testemunhou. Reclusou-se no sítio da família onde permaneceu algum tempo em amarga depressão, até resolver que não podia ficar para sempre naquela situação.
     Empenhou-se na tarefa de fazer algo bom para o mundo. Decidiu começar pelo quintal de casa e recuperou a vegetação do sítio. Encravado em uma das regiões mais devastadas do Brasil pela agricultura extensiva, o sítio voltou a ter verde, os animais votaram e até a água, que andava escassa, voltou a jorrar nas nascentes.
     Voltaram também a pujança e a vitalidade do fotógrafo, que tornou a viajar pelo mundo. Dessa vez, retratando os sinais de que o mundo pode se tornar um lugar melhor. A nova tarefa trouxe paz e alegria. Agora queria mais do que restaurar o próprio sítio. Planejou restaurar toda uma bacia hidrográfica, no ambicioso projeto de plantar mais de cem mil mudas de árvore nas nascentes de um rio, ao longo de vinte e cinco anos.
     O fotógrafo Sebastião Salgado, além de ser o gênio criador das exposições “Revivendo o Êxodos” e “Gênesis”, também queria recuperar o Rio Doce. A ineficiência do Estado na tarefa de fiscalizar e a irresponsabilidade das mineradoras da região, no entanto, apunhalaram fatalmente o rio, que jaz fétido e sem vida. Mataram o Rio Doce.
     Como estará o coração do fotógrafo neste momento? Cairá novamente em melancolia, vislumbrando as atrocidades que o ser humano é capaz ou a esperança que o acometeu nos últimos anos será maior? Terá forças para retomar o projeto, agora muito mais urgente do que antes, de recuperar o Rio Doce? O rio antes precisava ser revitalizado. Hoje, precisa do mais poderoso dos milagres, o milagre da ressurreição.

Nota:O documentário “O Sal da Terra” (2014) conta a história do fotógrafo Sebastião Salgado.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

FILHOS: SEMENTES DA ESPERANÇA


     A madrugada do dia 29 de novembro foi agitada na maternidade do Hospital Santa Luzia, em Brasília. Nasceram seguidamente sete bebês. Entre eles estava a minha filha mais nova. Esses bebês vêm ao mundo em tempos difíceis. O crescimento do extremismo religioso no mundo repete as maiores atrocidades que já ocorreram na história da humanidade: torturas, sequestros, extermínio, crucificação, cremação de pessoas vivas, terrorismo, guerra. Outro grave problema é o aquecimento global, contra o qual não há sinais de ações contrárias em grande escala de forma efetiva em um futuro próximo, com sérias consequências para a biodiversidade do planeta e para as sociedades humanas. Nos próximos anos, um bilhão de pessoas se tornarão refugiados do clima, isto é, aqueles que deverão abandonar suas casas devido a catástrofes ambientais causadas pelo aquecimento global. O Brasil está afundado em uma crise político-econômica que, na verdade, é consequência de uma crise ética e moral, além de sofrer as consequências do maior caso de corrupção da história da humanidade e do maior crime ambiental da história do país, com milhares de pessoas sem água, mesmo morando às margens de um dos mais importantes rios da região Sudeste.
     Diante do quadro desolador, muitas pessoas se recusam a ter filhos. Eu também já esbocei indagações do tipo “Como colocar filho em um mundo tão cheio de maldades?” Não planejei nenhum dos meus três filhos. Vieram por razões que alguns chamam de acaso ou destino. Eu prefiro chamar de providência divina. Providência que me fez mudar o pensamento. Hoje percebo que as pessoas boas devem se multiplicar em filhos. Pessoas más estão trazendo filhos ao mundo, ensinam suas maldades e as multiplicam sobre a Terra. O mundo será melhor, quanto mais pessoas boas estiverem dispostas a ter filhos, participar ativamente de sua educação e transmitir-lhes seus valores. Assim, cada um de seus filhos será semente de um mundo melhor.
     Muitos dos que resolvem ter filhos querem ter apenas um. “Filho dá trabalho”, dizem alguns. Outros argumentam que “já tem gente demais no mundo, a natureza não aguenta mais pessoas”. Realmente, se mantivermos o consumismo e o desperdício nos padrões atuais o planeta não suportará. Porém, as teorias neomalthusianas esbarram no fato de que hoje existem sete bilhões de pessoas no mundo, é produzida comida suficiente para dez bilhões e mesmo assim um bilhão de pessoas passam fome. As projeções mostram que a população mundial deverá chegar aos onze bilhões em 2050 quando, então, entrará em declínio. O desafio que temos não é mais o da produção de alimentos, mas o da justa distribuição e combate ao desperdício. Não ter ou ter apenas um filho tem um lado negativo. A China já descobriu isso e aboliu a política do filho único. Além de uma sociedade sem os conceitos de tio, primo e sobrinho, a economia pode se estagnar pela escassez de mão de obra. Os países com uma taxa de fecundidade abaixo de três filhos por mulher podem desaparecer em cem ou duzentos anos. Estudos recomendam a taxa de fecundidade de três filhos para manter uma população estável. É por isso que países como o Canadá e a Dinamarca incentivam a imigração ou pagam para os casais terem filhos. Não é sem fundamento que o Papa Francisco disse aos casais católicos que três é uma boa quantidade de filhos.

     Não devemos temer ter filhos devido ao receio de que não tenham um mundo bom para viver. Devemos tê-los para tornar o mundo melhor. Ter um só é pouco, dois é bom, três é melhor ainda.