Certo
fotógrafo mineiro correu o mundo retratando as diferentes condições da vida
humana. Fez um belíssimo trabalho, mas voltou para casa consternado com as
mazelas que testemunhou. Reclusou-se no sítio da família onde permaneceu algum tempo em amarga depressão, até resolver que não podia ficar para sempre naquela
situação.
Empenhou-se
na tarefa de fazer algo bom para o mundo. Decidiu começar pelo quintal de casa
e recuperou a vegetação do sítio. Encravado em uma das regiões mais devastadas
do Brasil pela agricultura extensiva, o sítio voltou a ter verde, os animais
votaram e até a água, que andava escassa, voltou a jorrar nas nascentes.
Voltaram
também a pujança e a vitalidade do fotógrafo, que tornou a viajar pelo mundo. Dessa
vez, retratando os sinais de que o mundo pode se tornar um lugar melhor. A nova
tarefa trouxe paz e alegria. Agora queria mais do que restaurar o próprio sítio.
Planejou restaurar toda uma bacia hidrográfica, no ambicioso projeto de plantar
mais de cem mil mudas de árvore nas nascentes de um rio, ao longo de vinte e
cinco anos.
O
fotógrafo Sebastião Salgado, além de ser o gênio criador das exposições “Revivendo
o Êxodos” e “Gênesis”, também queria recuperar o Rio Doce. A ineficiência do
Estado na tarefa de fiscalizar e a irresponsabilidade das mineradoras da
região, no entanto, apunhalaram fatalmente o rio, que jaz fétido e sem vida.
Mataram o Rio Doce.
Como
estará o coração do fotógrafo neste momento? Cairá novamente em melancolia,
vislumbrando as atrocidades que o ser humano é capaz ou a esperança que o
acometeu nos últimos anos será maior? Terá forças para retomar o projeto, agora
muito mais urgente do que antes, de recuperar o Rio Doce? O rio antes precisava
ser revitalizado. Hoje, precisa do mais poderoso dos milagres, o milagre da
ressurreição.
Nota:O documentário “O Sal da Terra” (2014) conta a
história do fotógrafo Sebastião Salgado.
