terça-feira, 9 de setembro de 2014

OS BIOINDICADORES DE ALGO ERRADO NA CAESB



Algo cheira mal na Caesb e não é só o esgoto. Até a natureza apresenta bioindicadores de que há algo de errado na empresa. Diz-se que um ser vivo é um bioindicador quando o seu crescimento desordenado ou o seu desaparecimento indica um desequilíbrio ecológico. Por exemplo, o crescimento desordenado da mamona no Cerrado normalmente indica degradação do solo, e o desaparecimento de anuros (sapos, pererecas e rãs) de uma lagoa pode significar poluição da água.
Há mais de dois anos verifico que alguma coisa está errada no local mostrado nas fotos acima, na Avenida Areal, em Águas Claras. Mesmo durante a seca, o capim mantém um verde exuberante, contrastando como a vegetação seca ao redor. É fácil perceber que há um derramamento de esgoto no local, mas as pessoas que cuidam dos encanamentos da Caesb ainda não tomaram providência. O capim está sendo um bioindicador de que maus serviços estão sendo prestados pela Companhia de Saneamento Ambiental do DF, a Caesb.
A manutenção do sistema de esgotamento sanitário é onde a empresa mais concentra funcionários terceirizados. A empresa derrama dinheiro como água em contratos com empreiteiras que não trabalham adequadamente. As fotos acima mostram isso. Sequer estão sendo feitas inspeções para verificar vazamentos na rede, tanto que há mais de dois anos esse vazamento existe e não foi consertado. O mais impressionante é que o vazamento fica em um local de grande circulação, a menos de um quilômetro da sede da Caesb.
É uma estratégia comum manter contratos caros em empresas públicas, associados a serviços de má qualidade, para justificar a privatização. Nessa situação o governo se vê obrigado a injetar dinheiro público na empresa para depois argumentar que a empresa dá prejuízo. Isso tem acontecido em vários países do mundo, especialmente na América Latina e na África, que têm entregado seus serviços essenciais na mão de empresas de países ricos. No Brasil, vários municípios já privatizaram seus serviços de saneamento básico, inclusive a capital Cuiabá.
O documentário “O mundo global visto pelo lado de cá” mostra que em 2000 o governo, pressionado pelo FMI e pelo Banco Mundial, privatizou a água potável na região de Cochabamba, na Bolívia. Houve grande pressão popular com passeatas e manifestações até que o governo voltou atrás. Em Brasília, os serviços de saneamento ainda não foram privatizados, mas os acontecimentos apontam para essa possibilidade. A falta de informação  das pessoas sobre o tema faz com a que apenas os servidores efetivos da empresa estejam em estado de alerta. Há anos os trabalhadores lutam contra as terceirizações e o sucateamento da empresa. Este ano, fizeram a maior greve da história da categoria e poucos dias após anunciaram nova greve, que pode ser iniciada a qualquer momento. A companhia ameaça retirar direitos conquistados pelos trabalhadores e não contrata os servidores aprovados no último concurso público realizado, nem mesmo para suprir as vagas anunciadas no edital. A empresa hoje alega dificuldades financeiras, mas poucos meses atrás anunciava, orgulhosa, crescentes recordes de arrecadação, advindos da ligação de novos consumidores à sua rede e da reclassificação das unidades consumidoras, muitas das quais passaram a pagar o dobro pela água e pela coleta de esgoto,
Na contramão da dificuldade financeira alegada, os trabalhadores denunciam desperdício de material, terceirizações caras e desnecessárias, pesados gastos com cargos políticos e comissionados, excessivos níveis hierárquicos e cargos de chefia, custas judiciais e indenizações trabalhistas provocadas pela má gestão. Em relação aos concursados aprovados e não contratados, o Ministério Público autuou a empresa. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) obriga a contratação, mas a empresa prefere pagar multas a nomear os concursados. Enquanto isso, prorrompem-se escândalos como o de comissionados que não comparecem no local de trabalho, o do terceirizado morto na adutora da EPTG após mais de vinte quatro horas de trabalho ininterrupto, o dos que cumprem expediente em gabinetes políticos e o caso de um servidor que deixou a empresa no Plano de Demissão Voluntária (PDV), voltou para a empresa como assessor da presidência, com o salário de mais de vinte mil reais, e ainda acumula o cargo de confiança de superintendente. Sem falar no atual presidente, que é diretor de uma das maiores empreiteiras que prestam serviço para a Caesb.
Como até a natureza vem mostrando, a Caesb não está bem. À população sobra o aumento da conta, a má qualidade dos serviços prestados, o odor do esgoto derramado pelas ruas, a poluição dos recursos hídricos e a ameaça de que a água, um de seus direitos essenciais, um recursos vital, seja subordinado a interesses econômicos.

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