Algo
cheira mal na Caesb e não é só o esgoto. Até a natureza apresenta
bioindicadores de que há algo de errado na empresa. Diz-se que um ser vivo é um
bioindicador quando o seu crescimento desordenado ou o seu desaparecimento
indica um desequilíbrio ecológico. Por exemplo, o crescimento desordenado da
mamona no Cerrado normalmente indica degradação do solo, e o desaparecimento de
anuros (sapos, pererecas e rãs) de uma lagoa pode significar poluição da água.
Há
mais de dois anos verifico que alguma coisa está errada no local mostrado nas
fotos acima, na Avenida Areal, em Águas Claras. Mesmo durante a seca, o capim mantém
um verde exuberante, contrastando como a vegetação seca ao redor. É fácil
perceber que há um derramamento de esgoto no local, mas as pessoas que cuidam
dos encanamentos da Caesb ainda não tomaram providência. O capim está sendo um
bioindicador de que maus serviços estão sendo prestados pela Companhia de
Saneamento Ambiental do DF, a Caesb.
A
manutenção do sistema de esgotamento sanitário é onde a empresa mais concentra
funcionários terceirizados. A empresa derrama dinheiro como água em contratos
com empreiteiras que não trabalham adequadamente. As fotos acima mostram isso.
Sequer estão sendo feitas inspeções para verificar vazamentos na rede, tanto
que há mais de dois anos esse vazamento existe e não foi consertado. O mais
impressionante é que o vazamento fica em um local de grande circulação, a menos
de um quilômetro da sede da Caesb.
É
uma estratégia comum manter contratos caros em empresas públicas, associados a serviços
de má qualidade, para justificar a privatização. Nessa situação o governo se vê
obrigado a injetar dinheiro público na empresa para depois argumentar que a
empresa dá prejuízo. Isso tem acontecido em vários países do mundo,
especialmente na América Latina e na África, que têm entregado seus serviços
essenciais na mão de empresas de países ricos. No Brasil, vários municípios já
privatizaram seus serviços de saneamento básico, inclusive a capital Cuiabá.
O
documentário “O mundo global visto pelo lado de cá” mostra que em 2000 o
governo, pressionado pelo FMI e pelo Banco Mundial, privatizou a água potável
na região de Cochabamba, na Bolívia. Houve grande pressão popular com passeatas
e manifestações até que o governo voltou atrás. Em Brasília, os serviços de
saneamento ainda não foram privatizados, mas os acontecimentos apontam para
essa possibilidade. A falta de informação
das pessoas sobre o tema faz com a que apenas os servidores efetivos da
empresa estejam em estado de alerta. Há anos os trabalhadores lutam contra as
terceirizações e o sucateamento da empresa. Este ano, fizeram a maior greve da
história da categoria e poucos dias após anunciaram nova greve, que pode ser
iniciada a qualquer momento. A companhia ameaça retirar direitos conquistados
pelos trabalhadores e não contrata os servidores aprovados no último concurso
público realizado, nem mesmo para suprir as vagas anunciadas no edital. A
empresa hoje alega dificuldades financeiras, mas poucos meses atrás anunciava,
orgulhosa, crescentes recordes de arrecadação, advindos da ligação de novos
consumidores à sua rede e da reclassificação das unidades consumidoras, muitas
das quais passaram a pagar o dobro pela água e pela coleta de esgoto,
Na
contramão da dificuldade financeira alegada, os trabalhadores denunciam desperdício
de material, terceirizações caras e desnecessárias, pesados gastos com cargos políticos
e comissionados, excessivos níveis hierárquicos e cargos de chefia, custas
judiciais e indenizações trabalhistas provocadas pela má gestão. Em relação aos
concursados aprovados e não contratados, o Ministério Público autuou a empresa.
O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) obriga a contratação, mas a empresa
prefere pagar multas a nomear os concursados. Enquanto isso, prorrompem-se escândalos
como o de comissionados que não comparecem no local de trabalho, o do
terceirizado morto na adutora da EPTG após mais de vinte quatro horas de
trabalho ininterrupto, o dos que cumprem expediente em gabinetes políticos e o
caso de um servidor que deixou a empresa no Plano de Demissão Voluntária (PDV),
voltou para a empresa como assessor da presidência, com o salário de mais de
vinte mil reais, e ainda acumula o cargo de confiança de superintendente. Sem
falar no atual presidente, que é diretor de uma das maiores empreiteiras que
prestam serviço para a Caesb.
Como até a natureza vem mostrando, a Caesb não está bem. À
população sobra o aumento da conta, a má qualidade dos serviços prestados, o
odor do esgoto derramado pelas ruas, a poluição dos recursos hídricos e a
ameaça de que a água, um de seus direitos essenciais, um recursos vital, seja subordinado
a interesses econômicos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário