Existe no Brasil a cultura de não se valorizar a educação. Para
mudar uma cultura é necessário investir na educação. Mas, como será possível
investir em algo em que não atribuímos valor? Ficamos assim em um impasse que
engripa nosso desenvolvimento socioeconômico.
Crianças e jovens dão mais valor a uma lanhouse do que a uma escola. Os pais preferem a novela e o futebol
a ajudar o filho com a tarefa. Os empregadores torcem o nariz se o empregado tira
umas horinhas para ver como está o filho na escola. E o Estado destina mais
verbas para pistas e viadutos do que para a reforma das escolas e para os
salários dos professores.
Posso dar testemunho do pouco valor que o brasileiro atribui à educação.
Muitas vezes fui abordado por parentes próximos que diziam que eu não precisava
estudar por que existem diversos casos de pessoas bem sucedidas que não
precisaram de estudo. Já fui acusado de estar estudando para fugir do trabalho.
Até já escutei que eu não devia estudar, devia trabalhar por que “filho de
pobre não estuda, filho de pobre trabalha”.
O descaso político é apenas reflexo dessa cultura. O político
não é um extraterrestre que veio à Terra e se apossou de nossas estruturas de
poder. O político faz parte do povo e carrega consigo seus costumes e valores.
É por isso que não são implementadas políticas públicas favoráveis à educação.
O mais triste é que nem mesmo os profissionais da educação conseguem
superar essa cultura. Na semana passada, um professor que eu conheço estava
chegando à escola para fazer coordenação pedagógica quando foi abordado pelo
porteiro que lhe perguntou “O que o senhor está fazendo aqui, professor?” O professor
logo percebeu que por trás da pergunta havia na verdade o seguinte pensamento: “Esse
professor vem coordenar na escola, vai ficar aí um tempão e vai me impedir de
ficar a vontade sozinho, fazendo coisas do meu interesse pessoal”. O professor
teve vontade de responder: “Não é da sua conta?” Porém, em respeito àquele ser
humano respondeu apenas: “Vim apenas buscar um material”. O professor realmente
queria trabalhar mas, constrangido, teve que dizer algo que não soasse como uma
afronta ao sossego do porteiro. O professor caminhou alguns metros e cruzou com
a supervisora e duas coordenadoras pedagógicas que estavam indo embora umas
três horas mais cedo. Elas disseram: “Professor, pode ir embora que a
coordenação hoje é liberada”. A coordenação deveria ser toda semana, mas a direção
dessa escola tem o hábito de deixar que os professores coordenem na escola
somente a cada quinze dias. O professor retrucou: “Tudo bem, mas eu quero
coordenar aqui”. O professor caminhou mais alguns metros e encontrou o
coordenador disciplinar que foi logo lhe dizendo: “Professor, pode ir embora,
não tem mais nada na escola hoje não”. Ora, aquele ainda era o segundo horário.
Faltavam três horas-aula e os alunos já estavam sendo dispensados. O professou
viu-se obrigado a realmente pegar apenas o material necessário e ir
coordenar em casa, em prejuízo de um trabalho conjunto com os colegas que
poderia colocar em prática a interdisciplinaridade e potencializar o
aprendizado dos alunos.
É fato que os baixos salários desanimam os profissionais da
educação, porém isso não deveria justificar as horas não trabalhadas, o
trabalho medíocre, a realização de atividades pessoais no horário de trabalho e
tantas outras coisas que no fim prejudicam o aluno. Mas, não tem nada não. O
aluno também achou bom ser liberado mais cedo. Ele nem queria ir à escola mesmo.
Enquanto isso, o Brasil segue demandando mão-de-obra especializada. Importamos técnicos,
engenheiros e até médicos cubanos.
Muito bom! Parabéns!
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