terça-feira, 17 de setembro de 2013

Tarifa Zero: garantia de direitos, de redução da desigualdade e de desenvolvimento

Nos dias 10 e 11 de setembro participei do evento “Diálogos CDES-DF: Mobilidade Urbana e Politicas Públicas de Transporte”. Nas diversas mesas redondas que aconteceram estiveram presentes representantes do governo, da academia e da sociedade civil organizada. Em quase todas as mesas houve discussões a respeito da “tarifa zero”. Até então eu não tinha opinião formada a respeito e as pessoas que a defendiam, quando conseguiam algum espaço na mídia para expor suas ideias, me pareciam um tanto quanto utópicas. Pareciam estar defendendo algo difícil de sustentar com argumentos lógicos. Eu ainda não tinha ouvido explicações satisfatórias sobre como sustentar um Sistema de Transporte Público Coletivo sem os recursos advindos do pagamento das passagens. Agora percebo a tarifa zero como instrumento de garantia de direitos fundamentais, de redução das desigualdades sociais e de desenvolvimento econômico.
Foi interessante notar que ninguém do governo ou da academia se opunha à tarifa zero. Pelo contrário, técnicos do IPEA e professores universitários apresentaram fortes argumentos favoráveis. Os representantes do GDF foram mais cautelosos, não se colocaram contrários, mas expuseram as dificuldades para colocar a ideia em prática, especialmente a necessidade de um debate mais amplo, a ampliação da oferta para absorver o aumento da demanda, adaptações legais e uma reforma tributária que viabilize o subsídio ao transporte público gratuito.
O Movimento Passe Livre (MPL), talvez seja o mais conhecido defensor da tarifa zero. Segundo seus representantes presentes no evento a tarifa garante o direito de ir e vir, o direito ao transporte, o direito de se encontrar com os familiares e amigos, o direito de chegar aos locais onde podem expor suas ideias e consequentemente o direito a livre manifestação do pensamento. Diante do fato de que o emprego, os equipamentos de lazer e de saúde, as escolas e os eventos culturais, se concentrarem em determinados lugares, a tarifa zero também garantiria os direitos ao trabalho, ao lazer, à saúde, à educação e à cultura.
Atualmente vivemos um modelo em que as pessoas de baixa, os principais usuários do transporte público, com a passagem que pagam e os tomentos que sofrem, subsidiam as gratuidades (estudantes, idosos e portadores de necessidades especiais) e a mobilidade das pessoas de renda mais elevada que se locomovem de carro. A tarifa paga é calculada de forma a compensar a locomoção daqueles que não pagam. E quanto mais as pessoas se submetem a andar em ônibus lotados, deixam as vias e os estacionamentos mais livres para aqueles que usam o carro. O Estado, ao invés de favorecer ao transporte público, favorece o transporte individual, construindo pistas e viadutos e abaixando o IPI dos automóveis, por exemplo.
O modelo ideal seria aquele em que as pessoas de renda mais elevada e aqueles que insistem em usar o carro paguem pela mobilidade dos demais. O preço elevado dos imóveis nos locais que concentram o emprego e os equipamentos urbanos expulsou o pobre para as periferias e trouxe sua necessidade de locomoção em meios de transporte mais velozes. Seria justo que o IPTU desses locais fosse mais elevado e subsidiasse a passagem dessas pessoas. A passagem também seria subsidiada pelo IPVA dos carros, por pedágios urbanos nas áreas mais movimentadas e por estacionamentos pagos (dinheiro que hoje não gera benefício social por que vai para o bolso de grandes empresas operadoras dos estacionamentos). Uma parte da passagem seria paga pelos empregadores, com já acontece hoje. E o Estado, ao invés de investir no transporte individual, deveria investir na diversificação dos modais de transporte, na ampliação da oferta do serviço de transporte público, na construção de ciclovias e faixas exclusivas para o transporte coletivo.
Além de garantir direitos e reduzir a desigualdade, a tarifa zero contribui para o desenvolvimento econômico. Diversas cidades da Europa, dos Estados Unidos e até do Brasil implementaram a tarifa com sucesso. Em um dos debates do evento promovido pelo CDES-DF esteve presente o prefeito de Agudos, cidade no interior de São Paulo em que a tarifa zero foi implantada há dez anos. De acordo com o prefeito a tarifa zero trouxe investimentos e dinamizou a economia. Nas cidades com tarifa zero o dinheiro das passagens passa a incrementar o consumo das famílias. Com a melhoria da mobilidade as empresas ganham funcionários mais felizes, pontuais e produtivos.
Alguns críticos dizem que a tarifa zero é viável apenas em pequenas cidades. Porém, Sidney na Austrália, com cerca de quatro milhões de habitantes, mantém linhas com tarifa zero. A cidade de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina, chegou a cogitar a implantação da tarifa zero, que foi inviabilizada não por questões técnicas, mas por questões políticas.

Para quem tem carro, como eu, não soa bem a ideia de pagar um IPVA mais caro e para estacionar em locais públicos. Mas, não devemos pensar no prejuízo pessoal e sim no ganho social. Devemos almejar não apenas o crescimento econômico, mas também o desenvolvimento social. O Brasil já é a quinta economia do mundo, mas devido à desigualdade se mantém com baixos índices de desenvolvimento humano. A tarifa zero é uma forma de iniciar a redução da desigualdade. Aos poucos, vamos construindo a verdadeira humanidade, que ainda está por vim. Como disse o geógrafo Milton Santos “estamos ensaiando uma verdadeira humanidade”.

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