sábado, 12 de abril de 2014

A Engenharia de Tráfego e a cultura da obra em Brasília


A foto acima mostra o resultado da mais nova obra de melhoria do acesso a Águas Claras. Foram meses de obra. Certamente, muito dinheiro gasto. E, no entanto, não houve melhoria. Em Brasília, as alterações no sistema viário não são devidamente planejadas. Não se amparam em pareceres técnicos, mas em critérios político-eleitoreiros subordinados aos interesses das empreiteiras que financiam as campanhas e realizam as obras.

A prova mais vergonhosa de que as obras no sistema viário são feitas sem planejamento adequado é a EPTG. O viaduto Israel Pinheiro, por exemplo, apesar de sua megaestrutura, não consegue desempenhar o papel fundamental de um viaduto: fazer com que as vias se cruzem sem a necessidade de interromper o fluxo de veículos; o viaduto mantém dois semáforos nas vias marginais causando transtornos na hora do rush. No acesso ao SIA, próximo ao córrego Guará, existem duas opções para quem quer entrar no setor, mas não existe opção para quem quer sair em direção ao Plano Piloto. Para fazer isso é preciso retornar no Guará ou seguir por dentro do SIA até a loja Só Reparos, ingressar na EPTG, voltar até o viaduto próximo ao córrego, para então pegar o sentido Plano Piloto. Nos dois extremos da EPTG, na chegada ao centro de Taguatinga e na chegada à Octogonal, o afunilamento da via provoca engarrafamentos praticamente ao longo de todo o dia.

Detran, DER e DFTrans, órgãos diretamente envolvidos na qualidade do trânsito, não trabalham de forma integrada para resolver os problemas de maneira holística. Dificilmente um consulta ao outro quando vai realizar uma intervenção no tráfego. Esses órgãos não possuem sequer softwares que simulam as alterações no sistema viário em um ambiente virtual, antes de realiza-las na prática. O DER encontra-se em processo de aquisição de um desses softwares, no entanto, um dos mais básicos, que não simula operações essenciais, como por exemplo, o impacto da implantação de uma faixa exclusiva para ônibus em uma rodovia, talvez por que esse não seja o seu negócio e quem cuida de faixa exclusiva para ônibus é o DFTRANS. Por enquanto, quando as simulações são necessárias os órgãos contratam empresas para realizá-las. No entanto, como as simulações são caras e complicadas, nem sempre todas as alterações são simuladas. Logicamente que as obras são muito mais caras e é difícil revertê-las, mas em Brasília, a obra deve ser feita e isso não se discute.

Soluções operacionais bem articuladas podem surtir melhor efeito do que as obras. A inversão do sentido da via Estrutural nos horários de rush e as adaptações no fluxo de veículos entre a via Estrutural e Eixo Monumental pela manhã são bons exemplos de como o trânsito pode ser melhorado sem gastar um quilo de cimento. Há cerca de quatro anos, antes das obras na EPTG, os agentes de trânsito conseguiam contornar bastante o problema dos congestionamentos da via fechando com cones alguns retornos e canalizando o trânsito com cones nos principais acessos. Mesmo com os bons resultados, resolveram fazer as obras e abandonaram o hábito de colocar os agentes na rua. As obras não resolveram os problemas e hoje os agentes não são postos na rua. Ficam nas burocráticas repartições tomando café e assistindo TV.

Outro dia, um agente do Detran fez a gentileza de me multar ao lado do colégio COEBS na via Boca da Mata por “ultrapassar carro parado junto ao semáforo”. Recorri da multa por que no local não existe semáforo (será que o agente ganha comissão?). O processo foi parar no setor de ENGENHARIA DE TRÁFEGO do Detran que, segundo eles, existe um semáforo há cerca de 200 metros. Inconformado, medi a distância. São mais de 400 metros, mais do que o dobro do que o medido pela ENGENHARIA DE TRÁFEGO do Detran. Não são eles que planejam nosso sistema viário? Como eles estão fazendo isso se não conseguem nem medir direito o comprimento de um trecho de via?


Para desespero da população, além da incompetência da engenharia de tráfego, em 2014 o Distrito Federal baterá a marca de 1,5 milhões de veículos em circulação, a implantação de ciclovias vai mal, obrigado, e a melhoria do transporte público anda a passo de tartaruga. Pode ser que não exista mesmo a intenção de resolver os problemas, pois, cada problema definitivamente solucionado elimina a necessidade de uma nova obra.

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