22 de março de 2016, Dia Mundial da Água
Roberto Souza Borges bacharel, licenciado e mestre em Geografia, com concentração em Gestão Ambiental e Territorial. Especialista em Geoprocessamento. Há um ano é Analista de Sistemas de Saneamento da Caesb. Trabalhou outros seis anos na empresa como Técnico em Eletricidade.
O Brasil vive um momento de recessão da economia marcado pela redução do PIB, fechamento de empresas e crescimento do desemprego. É preciso parabenizar o SEBRAE por que sem o seu trabalho de apoio à micro e pequena empresa a situação de crise estaria muito pior. As micro e pequenas empresas têm um papel fundamental para a manutenção dos postos de trabalho e arrecadação de impostos. A crise econômica concorre com uma crise ambiental de forte impacto na disponibilidade de recursos naturais, inclusive a água.
A situação de crise é uma oportunidade para que o
micro e pequeno empresário reavalie seus processos e cultura organizacional a
fim de garantir a sobrevivência e a competitividade de sua empresa. A solução
encontrada pelas empresas mais modernas e arrojadas é a implementação da
Responsabilidade Socioambiental, não apenas como Green Marketing ou para atrair e fidelizar aos clientes, que estão
cada vez mais exigentes. Isso faz parte. Porém, o fundamental é que as empresas
social e ambientalmente responsáveis conseguem economizar insumos, reaproveitar
e reutilizar seus resíduos, e se envolvem menos em litígios e problemas
judiciais. Nesse contexto, também é importante que as empresas saibam como
economizar e reaproveitar água.
No auge da crise hídrica no estado de São Paulo,
era comum os empregados da Caesb escutarem a pergunta: “Temos risco de ficar
sem água como está acontecendo em São Paulo”? A pergunta mostra que, de maneira
geral, as pessoas estão preocupadas com a gestão dos recursos hídricos no
Distrito Federal. E estão preocupadas por que o assunto é realmente sério. A
água é um bem essencial e fundamental à vida. Porém, para evitar uma crise
hídrica como a que ocorreu em São Paulo é essencial que o questionamento evolua
para o uso consciente da água. As vezes pode parecer que Brasília não apresenta
problemas hídricos. A região em que moramos foi escolhida para abrigar o
Distrito Federal justamente por que, apesar de não possuir grandes cursos
d’água, existia uma grande quantidade de nascentes. Essas, no entanto, não
estão sendo muito bem cuidadas, muitos de nossos cursos d’água já não possuem
qualidade adequada para consumo e as alterações climáticas estão provocando
alterações na disponibilidade da água. A situação de Brasília é mais
confortável que a de São Paulo, mas não podemos descuidar e a população precisa
ter consciência disso.
No entanto, até mesmo dentro da Caesb, onde os
empregados recebem maiores informações a respeito do uso consciente da água,
ainda existem pessoas que não foram devidamente sensibilizadas. Uma vez um
colega me disse o seguinte: “Eu não sei por que se fala tanto em economizar
água, se todo ano a chuva traz a água de volta”. Essa ideia está completamente
equivocada e afirmo isso por que tenho observado há alguns anos a variação do
nível na represa do Rio Descoberto, responsável pela água consumida por 65% da
população do DF. A cada ano está demorando mais para o reservatório atingir a
cota máxima e começar a verter. Há alguns anos atrás era comum o reservatório
começar a verter em outubro. Ou seja, a estação das chuvas se iniciava em setembro
e com menos de dois meses de chuva a represa já estava cheia. Logo, o
reservatório passou a verter em novembro. Depois, em dezembro. Cada ano
demorando mais. O ano de 2014 acabou sem que o reservatório voltasse a verter.
Isso aconteceu apenas no mês de abril de 2015. Em 2016 foi semelhante, o reservatório
atingiu a cota máxima no dia 15 de março. Nos últimos anos, o reservatório
ficou vertendo por apenas alguns dias. No passado, isso acontecia por vários
meses.
Todo ano o regime de chuvas varia um pouco. As
vezes demora mais a começar a chover. As vezes a chuva vai embora mais cedo. O que
aconteceria no DF se a chuva fosse embora mais cedo e demorasse muito a voltar?
Será que teríamos água suficiente para aguentar uma seca prolongada? Já
testemunhei o reservatório atingir uma cota de apenas 90 centímetros acima do
volume morto, a partir do qual, em tese, não poderíamos mais retirar água (digo
“em tese” por que em São Paulo essa água chegou a ser consumida).
Não é apenas a influência climática que preocupa, outro
fator preocupante no DF é o assoreamento dos reservatórios. Toda barragem tem
uma vida útil. Com a entrada de sedimentos, cada vez mais sua capacidade é
reduzida. Nossos reservatórios são antigos e já estão bastante assoreados.
Algumas pessoas dizem: “basta dragar a areia e recuperar a capacidade do
reservatório”. Mas isso não é tão simples. A operação é cara e ao realizar a
dragagem, a qualidade da água é prejudicada, podendo se tornar imprópria para o
consumo ou exigindo um tratamento que a nossas estações não poderá oferecer.
Nossos reservatórios estão menores e o consumo está
maior. Na Estação Elevatória do Rio Descoberto, por exemplo, por muito tempo só
foi necessário ligar os motores até atingir a potência de 22.000 HP. Nos últimos
anos passou a ser necessária a potência de 27.500 HP, inicialmente, apenas nos
meses de maior consumo e hoje a potência é necessária quase que constantemente.
Além da menor disponibilidade e maior consumo, a qualidade de nossas águas está
cada vez pior. A solução é buscar água mais longe ou tratar água de qualidade
inferior. Ambas medidas tornam a água mais cara, com reflexo nos orçamentos dos
cidadãos e das empresas.
Atenta à situação dos recursos hídricos no Distrito
Federal a Caesb está realizando investimentos em novos sistemas de
abastecimento. Até 2018 estará em funcionamento o Sistema Corumbá IV, que vai
retirar água do reservatório localizado no município de Luziânia para abastecer
municípios de Goiás ao sul do Distrito Federal e reforçar o abastecimento de
Santa Maria, Gama, Recanto das Emas, Samambaia, Ceilândia, Taguatinga, Águas
Claras e Núcleo Bandeirante. Ainda possibilitará a regularização do
abastecimento em localidades como a região do Ponte de Terra, Meireles,
Sucupira, Pôr do Sol, Sol Nascente, Arniqueiras e Vicente Pires.
Também estão previstas captações no Córrego Bananal
e no Lago Paranoá. A água do Bananal deverá reforçar o Sistema Torto/Santa
Maria, que abastece Asa Sul, Asa Norte, Cruzeiro, Sudoeste, Octogonal, Lago
Norte, Paranoá, Itapoã, Lago Sul e Jardim Botânico. E a água do Paranoá será
utilizada para abastecer condomínios de Sobradinho II, Jardim Botânico e Setor
Habitacional Tororó, além de reforçar o abastecimento de Paranoá, São Sebastião
e Sobradinho. O excedente poderá abastecer ainda Planaltina, Brasília e Lago
Norte.
Os investimentos em novos sistemas de abastecimento
não devem provocar a sensação de que não precisamos mais economizar água e
proteger nossos recursos hídricos. Parte da água dos novos sistemas deverão
abastecer também cidades do entorno, que estão crescendo, e existem projeções
de incremento populacional no DF para os próximos anos. Cada cidadão precisa
fazer sua parte e a responsabilidade socioambiental das empresas precisa
compreender o uso consciente da água. A situação de crise econômica que estamos
vivendo é uma boa oportunidade para a mudança de postura. Uma das formas de
poupar dinheiro é gastando menos água. Além de economizar a água tratada que
recebemos, também é possível implementar reservatórios para a água de reuso e
para aproveitar a água da chuva, desde que observadas as normas específicas
para este tipo de instalação.
Apresentação multimídia utilizada: http://arcg.is/1PjKe93
Apresentação multimídia utilizada: http://arcg.is/1PjKe93

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