Quando a
humanidade utiliza sua criatividade para atender a “objetivos previamente
definidos” (VEIGA, 2008, p.30) surge a técnica.
Quando a criatividade está “ligada a desígnios últimos gera valores, que podem ser morais
religiosos, estéticos, etc” (VEIGA, 2008, p.31). Nos últimos séculos estamos
valorizando a criação de técnicas e não de valores substantivos. A noite de
Natal nos fornece uma oportunidade ideal para refletir sobre esse descompasso.
Séculos atrás
a capacidade criadora do seres humanos criou valores que deveriam ser
celebrados a cada ano na noite de Natal. Na mensagem cristã um Deus todo
poderoso se rebaixa fazendo-se homem. Assume a forma de uma frágil criança, que
nasce no seio de uma família pobre, em uma noite fria, longe de casa. É
rejeitado nas hospedarias da cidade e é obrigado a deitar-se em palhas, em meio
aos animais de um estábulo. Apesar de sua delicadeza, a criança não sucumbe à
perseguição de um poderoso tirano. A única coisa que lembra a verdadeira
essência da criança é o reconhecimento de sábios que trazem caros presentes.
Ora, se o criador onipotente se fez tão humilde, quanto mais nós devemos ser,
visto que somos apenas criaturas.
Desde a
revolução industrial a técnica se colocou a serviço do capitalismo, desenvolvendo
constantemente novas necessidades. A humanidade se colocou em uma busca
frenética para sanar necessidades consumindo novos produtos. O consumo se
tornou o grande deus dessa sociedade amparada na técnica e isso fica evidente
na celebração do Natal. Temos a “necessidade” de comprar roupa nova, comprar um
sapato novo, de arrumar o cabelo. Já não se comemora a encarnação do Deus que
se fez humilde para nos ensinar a humildade. E sem termos nada de divino
queremos os caros presentes dos sábios. Inventamos o décimo terceiro salário,
que deve ser pago antes do Natal para que possamos gastá-lo nessa data. Até o salário
que costuma sair no dia trinta ou no início do próximo mês, em dezembro, por
pressão do comércio, sai no dia vinte. Em nome da “necessidade” desse ou
daquele produto, passamos horas nos engarrafamentos, horas procurando uma vaga,
horas escolhendo produtos, horas nas filas dos caixas. E não queremos dedicar uma
hora às orações ou reflexões. Na “necessidade” de termos uma ceia nessa noite
enchemos a mesa de comida. Para cada dez pessoas fazemos comida para vinte e
não somos capazes de enxergar ao redor pessoas que não têm o que comer. Na “necessidade”
de nos divertirmos, colocamos o som no último volume e tomamos vinho e champanhe
além da conta.
A cega fé no
consumo não nos permite refletir se a gasolina queimada nos engarrafamentos vai
ou não prejudicar o planeta. Se os produtos comprados para sanar falsas
necessidades consumiram recursos da natureza desnecessariamente ou se haverá
algum prejuízo com o lixo produzido com tanto consumo. Se a comida levada pelo caminhão
de lixo no dia vinte e seis fez falta a alguém. Se o som alto perturba um
recém-nascido, alguém que está doente ou alguém que não queira uma noite
badalada. Se a bebida em excesso trará conseqüências além da ressaca no dia
seguinte – quantas pessoas perdem a vida na noite em que se celebra a vida.
Existe um
evidente descompasso entre o desenvolvimento da técnica e o desenvolvimento dos
valores. É como se a humanidade caminhasse com uma perna mais rápida e uma
perna mais lenta. O tombo é iminente. Precisamos resgatar os valores e podemos
começar refletindo sobre a nossa noite de Natal.
REFERÊNCIA
VEIGA, José Eli da (2005). Desenvolvimento Sustentável: o desafio
do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. 3.ed.
Realmente, Roberto! Realidade e atitudes que muitas vezes nos distancia do verdadeiro sentido da Vida.
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