terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Noite de Natal

Quando a humanidade utiliza sua criatividade para atender a “objetivos previamente definidos” (VEIGA, 2008, p.30) surge a técnica. Quando a criatividade está “ligada a desígnios últimos gera valores, que podem ser morais religiosos, estéticos, etc” (VEIGA, 2008, p.31). Nos últimos séculos estamos valorizando a criação de técnicas e não de valores substantivos. A noite de Natal nos fornece uma oportunidade ideal para refletir sobre esse descompasso.
Séculos atrás a capacidade criadora do seres humanos criou valores que deveriam ser celebrados a cada ano na noite de Natal. Na mensagem cristã um Deus todo poderoso se rebaixa fazendo-se homem. Assume a forma de uma frágil criança, que nasce no seio de uma família pobre, em uma noite fria, longe de casa. É rejeitado nas hospedarias da cidade e é obrigado a deitar-se em palhas, em meio aos animais de um estábulo. Apesar de sua delicadeza, a criança não sucumbe à perseguição de um poderoso tirano. A única coisa que lembra a verdadeira essência da criança é o reconhecimento de sábios que trazem caros presentes. Ora, se o criador onipotente se fez tão humilde, quanto mais nós devemos ser, visto que somos apenas criaturas.
Desde a revolução industrial a técnica se colocou a serviço do capitalismo, desenvolvendo constantemente novas necessidades. A humanidade se colocou em uma busca frenética para sanar necessidades consumindo novos produtos. O consumo se tornou o grande deus dessa sociedade amparada na técnica e isso fica evidente na celebração do Natal. Temos a “necessidade” de comprar roupa nova, comprar um sapato novo, de arrumar o cabelo. Já não se comemora a encarnação do Deus que se fez humilde para nos ensinar a humildade. E sem termos nada de divino queremos os caros presentes dos sábios. Inventamos o décimo terceiro salário, que deve ser pago antes do Natal para que possamos gastá-lo nessa data. Até o salário que costuma sair no dia trinta ou no início do próximo mês, em dezembro, por pressão do comércio, sai no dia vinte. Em nome da “necessidade” desse ou daquele produto, passamos horas nos engarrafamentos, horas procurando uma vaga, horas escolhendo produtos, horas nas filas dos caixas. E não queremos dedicar uma hora às orações ou reflexões. Na “necessidade” de termos uma ceia nessa noite enchemos a mesa de comida. Para cada dez pessoas fazemos comida para vinte e não somos capazes de enxergar ao redor pessoas que não têm o que comer. Na “necessidade” de nos divertirmos, colocamos o som no último volume e tomamos vinho e champanhe além da conta.
A cega fé no consumo não nos permite refletir se a gasolina queimada nos engarrafamentos vai ou não prejudicar o planeta. Se os produtos comprados para sanar falsas necessidades consumiram recursos da natureza desnecessariamente ou se haverá algum prejuízo com o lixo produzido com tanto consumo. Se a comida levada pelo caminhão de lixo no dia vinte e seis fez falta a alguém. Se o som alto perturba um recém-nascido, alguém que está doente ou alguém que não queira uma noite badalada. Se a bebida em excesso trará conseqüências além da ressaca no dia seguinte – quantas pessoas perdem a vida na noite em que se celebra a vida.
Existe um evidente descompasso entre o desenvolvimento da técnica e o desenvolvimento dos valores. É como se a humanidade caminhasse com uma perna mais rápida e uma perna mais lenta. O tombo é iminente. Precisamos resgatar os valores e podemos começar refletindo sobre a nossa noite de Natal.

REFERÊNCIA


VEIGA, José Eli da (2005). Desenvolvimento Sustentável: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. 3.ed.

Um comentário:

  1. Realmente, Roberto! Realidade e atitudes que muitas vezes nos distancia do verdadeiro sentido da Vida.

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